Você já comprou algo por impulso e, minutos depois, inventou uma justificativa “lógica” para convencer a si mesmo de que fez um ótimo negócio? Ou já se perguntou por que pessoas consideradas inteligentes e instruídas cometem erros financeiros banais?
A resposta para essas questões não está nas fórmulas de matemática financeira, mas escondida na mente humana. Dois autores, em seus livros sobre comportamento financeiro: o primeiro, chamado A Lógica do Consumo, do especialista em neuromarketing Martin Lindstrom, e o segundo, chamado A Psicologia Financeira, de Morgan Housel, chegam a conclusões semelhantes: de que a nossa relação com o dinheiro é irracional, emocional e guiada pelo subconsciente.
Lindstrom tem foco na neurociência e Housel examina os
hábitos comportamentais. Lindstrom diz que cerca de 85% a 90% das nossas
decisões de compra ocorrem no nível subconsciente e são impulsionadas por
impulsos emocionais, desejos ocultos e reações cerebrais automáticas, e não por
escolhas puramente lógicas. Somos movidos por impulsos automáticos, medos e
atalhos mentais moldados por nossas vivências e histórias pessoais, assim como
argumenta Housel, que defende que o sucesso financeiro tem menos a ver com
inteligência ou conhecimento técnico e muito mais com o comportamento pessoal e
o controle emocional diante do dinheiro.
Lindstrom ainda explica como o cérebro cria atalhos
emocionais baseados em experiências passadas de dor ou recompensa, que
determinam nossas escolhas em segundos sem a nossa percepção consciente. Já
Housel, neste mesmo contexto, destaca que cada indivíduo toma decisões
financeiras com base nas histórias que conta a si mesmo e em suas experiências
pessoais (como ter crescido na pobreza, na inflação ou em períodos de expansão
econômica...), formando suas próprias visões de mundo e que parecem razoáveis
para a própria pessoa.
Outro ponto em comum entre os autores é o papel do ego e da busca por status social. Lindstrom explica como nosso cérebro é estimulado por neurônios-espelho a desejar produtos de luxo para demonstrar poder e pertencimento social. Os neurônios-espelho são células cerebrais especializadas que são ativadas tanto quando realizamos uma ação quanto quando observamos outra pessoa realizando essa mesma ação, ou seja, para o cérebro, observar algo e fazer algo ativam circuitos cerebrais semelhantes. Quando falamos em consumo, Lindstrom explica que os neurônios-espelho estão por trás do desejo de imitação e das compras por impulso. Por exemplo, ao olhar para um manequim elegante na vitrine de uma loja, os neurônios-espelho fazem o cérebro simular instantaneamente a sensação de ser aquela pessoa atraente, jovem e confiante. A simulação mental criada pelos neurônios-espelho ativa a liberação de dopamina, o neurotransmissor responsável pelo prazer e pela expectativa de recompensa. Essa descarga de bem-estar ocorre em menos de 2,5 segundos e atropela o raciocínio lógico antes que a pessoa perceba que gastou no cartão de crédito. O consumidor, portanto, não compra apenas a peça de roupa, mas a atitude e a imagem projetada.
Os neurônios-espelho mostram que somos programados biologicamente para copiar comportamentos, buscar status social e absorver emoções alheias.
De forma complementar, Housel destaca o "paradoxo do dono
do carro", lembrando que frequentemente gastamos dinheiro para
impressionar os outros, para sinalizar que devem ser admiradas, sem perceber
que perceber que os outros estão admirando o objeto e não o motorista, ou seja,
admiram os bens, e não quem os possui. Em ambos os casos, a busca por aprovação
externa gera más escolhas financeiras.
Em resumo, compreender essa irracionalidade é o primeiro passo
para retomar as rédeas das nossas escolhas diárias. Ao reconhecer como as
marcas ativam nossos desejos ocultos e de que modo as armadilhas do ego
prejudicam nosso bolso, temos mais clareza em nossas escolhas de consumo. O
autoconhecimento serve como um escudo para resistir aos impulsos e construir
uma vida financeira mais saudável e equilibrada.
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HOUSEL, Morgan. A psicologia financeira: lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade. Tradução de Roberta Clapp e Bruno Fiuza. 1. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2021.
LINDSTROM, Martin. A lógica do consumo: verdades e mentiras sobre por que compramos. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2017.


