quinta-feira, 23 de abril de 2026

Diagrama de causa e efeito: uma aplicação prática na gestão no campo


Como identificar a origem dos problemas na sua propriedade rural? Por exemplo: por que a produtividade desta safra diminuiu? O que explica a frequência de verminose nos animais? O diagrama de causa e efeito é uma ferramenta que pode ajudar a encontrar essas respostas.


   Na natureza, todo resultado é consequência de um conjunto de fatores interligados. Os processos biológicos e ambientais atuam em conjunto, e suas interações geram efeitos que podem ser observados diretamente no campo.  Mas essa relação de causa e efeito, presente tanto no crescimento das plantas quanto na saúde dos animais, pode ser analisada de forma sistemática.

     Você já pensou em como identificar a origem dos problemas na sua propriedade rural? Por exemplo: por que a produtividade desta safra diminuiu? O que explica a frequência de verminose nos animais? Pois saiba que o diagrama de causa e efeito é uma ferramenta que pode ajudar a encontrar essas respostas.



     Ao aplicá-lo na rotina do campo, será possível visualizar de forma clara as relações entre as causas e os efeitos dos desafios enfrentados. Assim, esta ferramenta se torna um recurso importante na gestão rural ao apoiar decisões mais assertivas.

   O diagrama de causa e efeito também é conhecido como diagrama de Ishikawa ou diagrama de espinha de peixe. Foi criado na década de 40 pelo engenheiro Kaoru Ishikawa, na Universidade de Tóquio, e ainda hoje é amplamente utilizado por empresas de todo o mundo. Este diagrama tem o objetivo de facilitar a identificação de causas potenciais de um problema específico por meio de uma ferramenta visual, que conecta o problema às suas possíveis origens. A filosofia que embase o método é que para resolver um problema, primeiro precisamos entender suas causas. Embora tenha sido criado para problemas de qualidade na indústria, o diagrama tem potencial para análise de problemas de diversos setores, incluindo a gestão no campo.

    O Diagrama de Ishikawa parte da ideia de que todo problema tem causas específicas que podem ser descobertas e corrigidas. Ele funciona como uma ferramenta de análise estruturada, ajudando a seguir um caminho lógico: começamos pelo efeito observado e vamos verificando as possíveis causas que o originaram.

   Para facilitar essa busca pelas causas, o método original organiza as causas em seis grandes grupos: máquina, material, mão de obra, método, medida e meio ambiente

   Essas categorias funcionam como pontos de partida para  entender de onde surgem os problemas. Assim, o diagrama ajuda a visualizar de forma clara e prática como diferentes fatores se conectam, tornando mais fácil identificar as possíveis soluções. Estes grupos ou categorias tradicionais podem ser adaptados para refletir a realidade da propriedade rural. Uma possível adaptação na gestão rural seria usar categorias como clima, solo, genética, manejo, equipamentos e pessoal.

   Segue um exemplo prático de utilização do Diagrama de Ishikawa em uma propriedade rural que está enfrentando um aumento nos casos de verminose em ovinos, comprometendo a saúde do rebanho e a produtividade. 

   O proprietário reuniu sua equipe e definiu que o problema central é o seguinte: “alta incidência de verminoses em ovinos”. O problema é colocado na extremidade direita do diagrama.

   As categorias principais adaptadas para este caso foram: alimentação, sanidade, instalações, manejo, ambiente e pessoal.

   Na categoria alimentação, foram identificadas causas como pastagens contaminadas por larvas e ausência de rotação adequada dos piquetes. 

   Em sanidade identificaram fatores como falta de um protocolo de vermifugação e a resistência dos parasitas aos medicamentos.

   Ao analisar as instalações, apareceram problemas como comedouros e bebedouros mal posicionados e áreas de descanso sem uma limpeza frequente.

   No grupo manejo, verificou-se a superlotação dos animais em áreas restritas e intervalos inadequados entre vermifugações.

   Em relação ao ambiente, verificaram a alta umidade e temperatura, além da falta de drenagem adequada no solo.

   Por fim, na categoria pessoal, foram apontadas falhas como falta de treinamento para identificar sinais clínicos e manejo incorreto na aplicação de medicamentos.


   Esse processo estruturado permitiu que o proprietário e sua equipe visualizasse de forma clara as diferentes causas relacionadas ao problema, facilitando a definição de ações corretivas e preventivas para reduzir a incidência de verminoses e melhorar o desempenho do rebanho.

   Assim, o Diagrama de causa e efeito, também chamado de Diagrama de Ishikawa é mais que uma ferramenta, mas uma forma estruturada de enxergar os problemas na gestão rural. Ao utilizar no dia a dia, o produtor pode analisar as situações com mais clareza, pois uma virtude deste diagrama é  organizar as causas e os efeitos de maneira simples, revelando relações que normalmente não seriam percebidas.

   Aplique o diagrama em um desafio real de sua propriedade, adapte ao seu contexto e observe como a análise se torna mais completa. Compartilhe suas impressões nos comentários e enriqueça a troca de experiências.


RAMOS, Edson Marcos Leal Soares. Controle estatístico da qualidade. [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Bookman, 2013.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Uma só mesa. Um só Agronegócio.

   


   O agronegócio brasileiro é um só. Não se divide por narrativas fragmentadas, separando pequenos, médios e grandes produtores, mas se apresenta como um sistema integrado, que garante alimento, renda e desenvolvimento ao País. Vamos ilustrar isso. Pense nas três refeições principais de uma família: o café da manhã, o almoço e o jantar. Se atentarmos para os diferentes alimentos que consumimos em cada refeição, veremos a participação de pequenos, médios e grandes produtores. Cada produtor, neste contexto, participa de forma complementar, garantindo a segurança alimentar interna e o protagonismo do Brasil no contexto internacional. 

   Aproveitando o contexto apresentado, vamos definir o conceito de agronegócio, o conceito original, cunhado no final da década de 50, buscando entender a nova realidade do setor e compreender todos os componentes e inter-relações nas diferentes cadeias produtivas. Vejamos o conceito então: conjunto de todas as operações e transações envolvidas desde a fabricação dos insumos agropecuários, das operações de produção nas unidades agropecuárias, até o processamento, distribuição e consumo dos produtos agropecuários ‘in natura’ ou industrializados.  Destaco, no conceito apresentado, o trecho “... o conjunto de todas as operações [...] de produção...”, ou seja, não são as operações do pequeno, do médio ou do grande produtor, mas a soma de todos. 

   Agora vamos falar de alguns números do agronegócio brasileiro: em 2025, o Brasil produziu em torno de 320 milhões de toneladas de grãos segundo a Conab/Embrapa, crescimento de 10,2% em relação a 2024, exportou US$ 170 bilhões e o superávit da balança comercial do setor foi de US$ 149 bilhões. Sem o setor, o Brasil teria déficit comercial. Segundo a Embrapa, o agro brasileiro é responsável por alimentar quase 10% da população global, ou seja, cerca de 800 milhões de pessoas no mundo. Estamos entre os maiores exportadores mundiais de soja, café, açúcar, suco de laranja, carne de bovina e frango, além de algodão. Só em 2025, o agro cresceu em torno de 7%. Além disso, mesmo que as estimativas variem, cerca de 15% da população são produtores rurais, e são responsáveis por aproximadamente um terço do PIB nacional. 

   Por fim, é importante destacar, quando olhamos para os aspectos de produtividade do setor, a função social cumprida pelo mesmo. A própria legislação, a Lei 4.504/64 (o chamado Estatuto da Terra), entre seus artigos, destaca que a propriedade da terra desempenha a sua função social quando, simultaneamente, e entre outros, mantém níveis satisfatórios de produtividade. Além disso, a própria legislação entende por “Política Agrícola o conjunto de providências de amparo à propriedade da terra, que se destinem a orientar, no interesse da economia rural, as atividades agropecuárias, seja no sentido de garantir-lhes o pleno emprego, seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país.” Observamos pontos importantes nesta última definição, como o interesse na economia rural (no sentido do desenvolvimento e na sustentabilidade da economia ligada ao campo) e a integração com o processo de industrialização, o que vem de encontro com os conceitos atuais sobre agronegócio, mais especificamente sobre a integração agricultura x indústria. Outra legislação que reforça este contexto é a Lei 8.171/1991, que dispõe sobre a política agrícola. Em seu texto, destaca que o setor agrícola é constituído por segmentos como produção, insumos, agroindústria, comércio, abastecimento e afins; e como atividade econômica, a agricultura deve proporcionar rentabilidade compatível com a de outros setores da economia. Também destaca que “o adequado abastecimento alimentar é condição básica para garantir a tranquilidade social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico-social”. 

   Desta forma, assim como as refeições só fazem sentido quando consideradas em conjunto, o agronegócio só pode ser compreendido como algo único, e as diferentes escalas de produção se articulam para sustentar as mesas e a economia do País. 

   E por isto, creio que este entendimento faz sentido, tanto para os produtores e outros agentes do agro, quanto para os consumidores e para a própria sociedade.


Publicado no jornal Em Questão em 11.04.2026


A visão sistêmica na gestão rural

"A condição básica para que o produtor (gestor) rural possa desempenhar bem a sua função de tomador de decisão é a compreensão e o entendimento do funcionamento do seu empreendimento."


   A visão sistêmica auxilia no entendimento do funcionamento de um empreendimento rural. Geralmente, ao se deparar com problemas, aquele produtor que precisa tomar uma decisão acaba por reagir a uma situação em particular, um problema que surge e precisa ser solucionado. Porém, seria importante visualizar e entender todo o cenário e suas conexões ao invés de atuar sobre eventos individuais. O pensamento sistêmico, portanto, envolve mudanças na forma de ver como as coisas funcionam.

   Muitos estudos já foram desenvolvidos, ao longo do tempo, buscando descrever os principais elementos de uma unidade de produção agrícola. Porém, com o processo de modernização da agricultura, conhecido como Revolução Verde (a partir da década de 1960), os estudos sobre estas unidades de produção passaram a ser mais segmentados, com o entendimento, na época, de que se poderia entender melhor seu funcionamento com o estudo isolado das diferentes áreas que compõem uma unidade de produção (Miguel, 2009). Neste contexto, o produtor acabou sendo considerado apenas um executor de tarefas produtivas, com pouca influência na gestão e condução da propriedade como um todo. 

   Posteriormente, foram constatadas as limitações destes estudos mais isolados das partes de uma unidade de produção, já que uma propriedade agropecuária é mais complexa pois desempenha, além da função de produção, outras atividades combinadas, como a comercialização, conservação do ambiente de produção, entre outros. Além destes aspectos, devemos considerar que as propriedades rurais não estão desvinculadas do ambiente externo e de sua relação com ele, e são influenciadas, em maior ou menor intensidade por este meio. 

   Ainda hoje, dentre os elos que compõem uma cadeia produtiva agroindustrial, a produção agropecuária, ou seja, a propriedade em si, é o elo menos profissionalizado em termos de gestão. O problema principal não está relacionado com as técnicas produtivas (o produtor, em sua maioria, é eficiente quanto se fala em produção, produtividade), mas sobretudo, na compreensão do funcionamento dos mercados, articulação com os segmentos pré e pós-porteira, novas formas de negociação e práticas de gestão, ou seja, a interação com este ambiente externo. Nesse sentido, resta ao produtor entender estas relações e adotar ações de reação e adaptação frente às condições externas impostas.

   A partir do que foi apresentado, é possível perceber que uma unidade de produção (ou simplesmente a propriedade rural) pode ser entendida como um sistema.

   Mas o que é um sistema, segundo a teoria ou visão sistêmica, ou ainda, teoria ou visão dos sistemas?

   Resumidamente, um sistema é um conjunto de partes que interagem entre si, organizado em função de um objetivo, e que se relaciona, também, com outros sistemas. Veja que uma unidade ou sistema de produção é um conjunto de partes (seus sistemas de produção/transformação, como cultivos e/ou criações, recursos ou fatores de produção, como terra, equipamentos, capital, conhecimento técnico..), influenciado pelos objetivos do produtor rural e de sua família (o sistema social) e em interação com outros sistemas externos ou meio externo (edafoclimático, econômico, político, tecnológico...).

   Veja a figura abaixo (Miguel, 2009), que representa uma propriedade rural (unidade de produção) e seus sistemas de produção segundo a abordagem sistêmica:



   Na unidade produtiva (chamamos de ambiente interno e está representada pelo círculo maior, que engloba também um círculo menor representando seus sistemas produtivos), existem fatores que influenciam o desempenho do propriedade, mas que o produtor rural tem maior possibilidade de controle. Assim, cabe a ele decidir, a partir das informações/conhecimentos disponíveis (leia o texto sobre a abordagem alternativa dos fatores de produção), como os recursos ou fatores de produção (insumos, capital, tecnologia e pessoas) serão utilizados para a produção. Decisões como o quê produzir, quanto produzir, como  produzir, quando produzir e para quem produzir devem ser tomadas, considerando as restrições de disponibilidades destes fatores. A relação entre as decisões produtivas e os recursos disponíveis é que vai definir o custo de produção (Lourenzani, 2004). Além disto, as relações e objetivos familiares (organização, responsabilidades, comando), bem como a maneira como as atividades (processos ou operações) são realizadas, também influenciam todo o processo produtivo da propriedade. 

   Perceba que as setas representam a relação de troca (ou interação) da propriedade (o ambiente interno) com os fatores externos. Estes fatores, como o clima, relevo, políticas governamentais, tecnologia e mercado fogem ao controle do produtor, embora influenciem o desempenho da propriedade rural. 

   Lidar com essa complexidade de fatores, sejam internos e internos, exige um esforço maior de gestão. E uma das  razões para a dificuldade em lidar com este contexto é a falta de uma visão sistêmica do empreendimento rural.  Ou seja, o produtor deve tomar decisões, não somente sob o aspecto produtivo e econômico, mas também levando  em consideração fatores estratégicos, tecnológicos, legais e comerciais.

   Veja a figura a seguir, adaptada de Lourenzani (2004), que representa os principais subsistemas de uma unidade de produção (subsistemas produtivo, financeiro, recursos humanos e comercial) e suas interações.



   Portanto, a condição básica para que o produtor (gestor) rural possa desempenhar bem a sua função de tomador de decisão é a compreensão e o entendimento do funcionamento do seu empreendimento. Além da identificação dos fatores (planejamento da produção, qualidade, custos, recursos financeiros, marketing, comercialização e recursos humanos, entre outros) que impactam o seu negócio, é necessário visualizar a interdependência desses  fatores, isto é, como eles se relacionam entre si e com o ambiente do negócio.


MIGUEL, L. Abordagem sistêmica da unidade de produção agrícola. In: WAGNER, S. A. et al. (Org.). Gestão e planejamento de unidades de produção agrícola. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2009. p. 11-17. 

LOURENZANI, W.L,; SOUZA FILHO, H.M.; BANKUTI, F.I. Gestão da empresa rural: uma abordagem sistêmica. IN: Congresso Internacional de Economia e Gestão de Negócios Agroalimentares, 4. 2004, Ribeirão Preto.

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